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Papo de Botequim – Parte 3

– Garçon, traga dois chopes por favor que hoje eu vou ter que falar muito.

Trabalhando com cadeias

Pelo título acima não pense você que vou lhe ensinar a ser carcereiro! Estou me referindo a cadeia de caracteres!

O Comando cut (que não é a central de trabalhadores)

Primeiro quero te mostrar, de forma eminentemente prática uma instrução simples de usar e muito útil: o comando cut, Esta instrução é usada para cortar um determinado pedaço de um arquivo e tem duas formas distintas de uso

O comando cut com a opção -c

Com esta opção, o comando tem a seguinte sintaxe:
cut -c PosIni-PosFim [arquivo]

Onde:
PosIni = Posição inicial
PosFim = Posição final

$ cat numeros
1234567890
0987654321
1234554321
9876556789

$ cut -c1-5 numeros
12345
09876
12345
98765

$ cut -c-6 numeros
123456
098765
123455
987655

$ cut -c4- numeros
4567890
7654321
4554321
6556789

$ cut -c1,3,5,7,9 numeros
13579
08642
13542
97568

$ cut -c -3,5,8- numeros
1235890
0986321
1235321
9875789

Como dá para ver, no duro mesmo existem quatro sintaxes distintas: na primeira (-c 1-5), eu especifiquei uma faixa, na segunda (-c -6), especifiquei tudo até uma posição, na terceira (-c 4-) de uma determinada posição em diante e na quarta (-c 1,3,5,7,9), determinadas posições. A última (-c -3,5,8-) foi só para mostrar que podemos misturar tudo.

O comando cut com a opção -f

Mas não pense você que acabou por aí! Como você deve ter percebido esta forma de cut é útil para arquivos com campos de tamanho fixo, mas atualmente o que mais existe são arquivos com campos de tamanho variáveis, onde cada campo termina com um delimitador. Vamos dar uma olhada no arquivo musicas que começamos a preparar no nosso papo na última vez que viemos aqui no botequim.

$ cat musicas
album 1^Artista1~Musica1:Artista2~Musica2
album 2^Artista3~Musica3:Artista4~Musica4
album 3^Artista5~Musica5:Artista6~Musica5
album 4^Artista7~Musica7:Artista8~Musica8

Então, recapitulando, o seu “leiaute” é o seguinte:
nome do album^interprete1~nome da musica1:...:interpreten~nome da musican

isto é, o nome do álbum será separado por um circunflexo (^) do resto do registro, que é formado por diversos grupos compostos pelo intérprete de cada música do CD e a respectiva música interpretada. Estes grupos são separados entre si por dois-pontos (:) e internamente, o nome do intérprete será separado por um til (~) do nome da música.

Então para pegarmos os dados referentes a todas as segundas músicas do arquivo musicas, devemos fazer:

$ cut -f2 -d: musicas
Artista2~Musica2
Artista4~Musica4
Artista6~Musica5
Artista8~Musica8

Ou seja, cortamos o segundo campo (-f de field em inglês) delimitado (-d) por dois-pontos (:). Mas, se quisermos somente os intérpretes, devemos fazer:

$ cut -f2 -d: musicas | cut -f1 -d~
Artista2
Artista4
Artista6
Artista8

Para entender isso, vamos pegar a primeira linha de musicas:

$ head -1 musicas
album 1^Artista1~Musica1:Artista2~Musica2

Então observe o que foi feito:

Delimitador do primeiro cut (:)

album 1^Artista1~Musica1:Artista2~Musica2

Desta forma, no primeiro cut, o primeiro campo do delimitador (-d) dois-pontos (:) é album 1^Artista1~Musica1 e o segundo, que é o que nos interessa, é Artista2~Musica2.

Vamos então ver o que aconteceu no segundo cut:

Novo delimitador (~)

Artista2~Musica2

Agora, primeiro campo do delimitador (-d) til (~), que é o que nos interessa, é Artista2 e o segundo é Musica2.

Se o raciocínio que fizemos para a primeira linha for aplicado no restante do arquivo, chegaremos à resposta anteriormente dada.

Se tem cut tem paste

Como já era de se esperar, o comando paste serve para colar, só que aqui no Shell o que ele cola são arquivos. Só para começar a entendê-lo, vamos fazer assim::

    paste arq1 arq2

Desta forma ele mandará para a saída padrão (stdout) cada um dos registros de arq1 ao lado dos registros de arq2 correspondentes e caso nenhum delimitador seja especificado, ele usará por default o <TAB>.

O paste é um comando pouco usado por sua sintaxe ser pouco conhecida. Vamos brincar com 2 arquivos criados da seguinte forma:

$ seq 10 > inteiros
$ seq 2 2 10 > pares

Para ver o conteúdo dos arquivos criados, vamos usar o paste na sua forma careta que mostramos acima:

$ paste inteiros pares
1 2
2 4
3 6
4 8
5 10
6
7
8
9
10

Quem está em pé, deita

Agora vamos transformar a coluna do pares em linha:

$ paste -s pares
2 4 6 8 10

Usando separadores

Como já foi dito, o separador default do paste é o <TAB>, mas isso pode ser alterado com a opção -d. Então para calcular a soma do conteúdo de pares primeiramente faríamos:

$ paste -s -d’+’ pares # também poderia ser -sd’+’
2+4+6+8+10

e depois passaríamos esta linha para a calculadora (bc) e então ficaria:

$ paste -sd’+’ pares | bc
30

Assim sendo, para calcular o fatorial do número contido em $Num, basta:

$ seq $Num | paste -sd’*’ | bc

Com o comando paste você também pode montar formatações exóticas como esta a seguir:

$ ls | paste -s -d’ttn’
arq1 arq2 arq3
arq4 arq5 arq6

O que aconteceu foi o seguinte: foi especificado para o comando paste que ele transformaria linhas em colunas (pela opção -s) e que os seus separadores (é…! Ele aceita mais de um, mas somente um após cada coluna criada pelo comando) seriam uma <TAB>, outra <TAB> e um <ENTER>, gerando desta forma a saída tabulada em 3 colunas.

Agora que você já entendeu isto, veja como fazer a mesma coisa, porém de forma mais fácil e menos bizarra e tosca, usando o mesmo comando mas com a seguinte sintaxe:

$ ls | paste – – –
arq1 arq2 arq3
arq4 arq5 arq6

E isto acontece porque se ao invés de especificarmos os arquivos colocarmos o sinal de menos (-), o comando paste os substitui pela saída ou entrada padrão conforme o caso. No exemplo anterior os dados foram mandados para a saída padrão (stdout), porque o pipe (|) estava desviando a saída do ls para a entrada padrão (stdin) do paste, mas veja o exemplo a seguir:

$ cat arq1
predisposição
privilegiado
profissional

$ cat arq2
encher
mário
motor

$ cut -c-3 arq1 | paste -d “” – arq2
preencher
primário
promotor

Neste caso, o cut devolveu as três primeiras letras de cada registro de arq1, o paste foi montado para não ter separador (-d"") e receber a entrada padrão (desviada pelo pipe) no traço (-) gerando a saída juntamente com arq2.

O Comando tr

Outro comando muito interessante é o tr que serve para substituir, comprimir ou remover caracteres. Sua sintaxe segue o seguinte padrão:

    tr [opções] cadeia1 [cadeia2]

O comando tr copia o texto da entrada padrão (stdin), troca as ocorrência dos caracteres de cadeia1 pelo seu correspondente na cadeia2 ou troca múltiplas ocorrências dos caracteres de cadeia1 por somente um caracter, ou ainda remove caracteres da cadeia1.

As principais opções do comando são:

Principais Opções do comando tr
Opção Significado
-s Comprime n ocorrências de cadeia1 em apenas uma
-d Remove os caracteres de cadeia1

Trocando caracteres com tr

Primeiro vou te dar um exemplo bem bobo:

$ echo bobo | tr o a
baba

Isto é, troquei todas as ocorrências da letra o pela letra a.

Suponha que em um determinado ponto do meu script eu peça ao operador para teclar s ou n (sim ou não), e guardo sua resposta na variável $Resp. Ora o conteúdo de $Resp pode estar com letra maiúscula ou minúscula, e desta forma eu teria que fazer diversos testes para saber se a resposta dada foi S, s, N ou n. Então o melhor é fazer:

$ Resp=$(echo $Resp | tr SN sn)

e após este comando eu teria certeza que o conteúdo de $Resp seria um s ou um n.

Se o meu arquivo ArqEnt está todo escrito com letras maiúsculas e desejo passá-las para minúsculas eu faço:

$ tr A-Z a-z < ArqEnt > /tmp/$$
$ mv -f /tmp/$$ ArqEnt

Note que neste caso usei a notação A-Z para não escrever ABCD...YZ. Outro tipo de notação que pode ser usada são as escape sequences (prefiro escrever no bom e velho português, mas nesse caso como eu traduziria? Seqüências de escape? Meio sem sentido, né? Mas vá lá…) que também são reconhecidas por outros comandos e também na linguagem C, e cujo significado você verá a seguir:

Escape Sequences
Seqüência Significado Octal
t Tabulação 11
n Nova linha 12
v Tabulação Vertical 13
f Nova Página 14
r Início da linha <^M> 15
\ Uma barra invertida 134

Removendo caracteres com tr

Então deixa eu te contar um “causo”: um aluno que estava danado comigo, resolveu complicar a minha vida e em um exercício prático valendo nota que passei para ser feito no computador, me entregou o script com todos os comandos separados por ponto-e-vírgula (lembra que eu disse que o ponto-e-vírgula servia para separar diversos comandos em uma mesma linha?).

Vou dar um exemplo simplificado e idiota de uma “tripa” assim:

$ cat confuso
echo leia Programação Shell Linux do Julio Cezar Neves > livro;cat livro;pwd;ls;rm -f lixo 2>/dev/null;cd ~

Eu executava o programa e ele funcionava:

$ confuso
leia Programação Shell Linux do Julio Cezar Neves
/home/jneves/LM
confuso livro musexc musicas musinc muslist numeros

Mas nota de prova é coisa séria (e nota de dólar é mais ainda :)) então, para entender o que o aluno havia feito, o chamei e em sua frente executei o seguinte comando:

$ tr “;” “n” < confuso
echo leia Programação Shell Linux do Julio Cezar Neves
pwd
ls
rm -f lixo 2>/dev/null

cd ~

O cara ficou muito desapontado, porque em 2 ou 3 segundos eu desfiz a gozação que ele perdera horas para fazer.
Mas preste atenção! Se eu estivesse em uma máquina com Unix, eu teria feito:

$ tr “;” “12” < confuso

Xpremendo com tr

Agora veja a diferença entre os dois comandos date: o que fiz hoje e outro que foi executado há duas semanas:

$ date # Hoje
Sun Sep 19 14:59:54 2004

$ date # Há duas semanas
Sun Sep 5 10:12:33 2004

Para pegar a hora eu deveria fazer:

$ date | cut -f 4 -d ‘ ‘
14:59:54

Mas duas semanas antes ocorreria o seguinte:

$ date | cut -f 4 -d ‘ ‘
5

Mas observe porque:

$ date # Há duas semanas
Sun Sep 5 10:12:33 2004

Como você pode notar, existem 2 caracteres em branco antes do 5 (dia), o que estraga tudo porque o terceiro pedaço está vazio e o quarto é o dia (5). Então o ideal seria comprimir os espaços em brancos sucessivos em somente um espaço para poder tratar as duas cadeias resultantes do comando date da mesma forma, e isso se faz assim:

$ date | tr -s ” “a
Sun Sep 5 10:12:33 2004

Como você pode ver não existem mais os dois espaços, então agora eu poderia cortar:

$ date | tr -s ” ” | cut -f 4 -d ” “
10:12:33

Olha só como o Shell já está quebrando o galho. Veja este arquivo que foi baixado de uma máquina com aquele sistema operacional que pega vírus:

$ cat -ve ArqDoDOS.txt
Este arquivo^M$
foi gerado pelo^M$
DOS/Rwin e foi^M$
baixado por um^M$
ftp mal feito.^M$

E agora eu quero te dar duas dicas:

Pinguim com placa de dica Dica #1 – A opção -v do cat mostra os caracteres de controle invisíveis, com a notação ^L, onde ^ é a tecla control e L é a respectiva letra. A opção -e mostra o final da linha como um cifrão ($).
Pinguim com placa de dica Dica #2 – Isto ocorre porque no formato DOS (ou rwin), o fim dos registros é formado por um carriage-return (r) e um line-feed (n). No Linux porém o final do registro tem somente o line-feed.

Vamos então limpar este arquivo.

$ tr -d ‘r’ < ArqDoDOS.txt > /tmp/$$
$ mv -f /tmp/$$ ArqDoDOS.txt

Agora vamos ver o que aconteceu:

$ cat -ve ArqDoDOS.txt
Este arquivo$
foi gerado pelo$
DOS/Rwin e foi$
baixado por um$
ftp mal feito.$

Bem a opção -d do tr remove o caractere especificado de todo o arquivo. Desta forma eu removi os caracteres indesejados salvando em um arquivo de trabalho e posteriormente renomeei-o para a sua designação original.
Obs: No Unix eu deveria fazer:

$ tr -d ’15’ < ArqDoDOS.txt > /tmp/$$
Pinguim com placa de atenção Isto aconteceu porque o ftp foi feito do modo binário (ou image), isto é, sem a interpretação do texto. Se antes da transmissão do arquivo tivesse sido estipulada a opção ascii do ftp, isto não teria ocorrido.

– Olha, depois desta dica tô começando a gostar deste tal de Shell, mas ainda tem muita coisa que não consigo fazer.

– Pois é, ainda não te falei quase nada sobre programação em Shell, ainda tem muita coisa para aprender, mas com o que aprendeu, já dá para resolver muitos problemas, desde que você adquira o “modo Shell de pensar”. Você seria capaz de fazer um script para me dizer quais são as pessoas que estão “logadas” há mais de um dia no seu servidor?

– Claro que não! Para isso seria necessário eu conhecer os comandos condicionais que você ainda não me explicou como funcionam.

– Deixa eu tentar mudar um pouco a sua lógica e trazê-la para o “modo Shell de pensar”, mas antes é melhor tomarmos um chope… Ô Chico, traz mais dois…

– Agora que já molhei a palavra, vamos resolver o problema que te propus. Repare como funciona o comando who:

$ who
jneves pts/1 Sep 18 13:40
rtorres pts/0 Sep 20 07:01
rlegaria pts/1 Sep 20 08:19
lcarlos pts/3 Sep 20 10:01

E veja também o date:

$ date
Mon Sep 20 10:47:19 BRT 2004

Repare que o mês e o dia estão no mesmo formato em ambos os comandos.

Pinguim com placa de dica Algumas vezes um comando tem a saída em português e o outro em inglês. Quando isso ocorrer, você pode usar o seguinte artifício:

$ date
Mon Sep 20 10:47:19 BRT 2004

$ LANG=pt_BR date
Seg Set 20 10:47:19 BRT 2004

Desta forma passando a saída do comando date para português.

Ora, se em algum registro do who eu não encontrar a data de hoje, é sinal que o cara está “logado” há mais de um dia, já que ele não pode ter se “logado” amanhã… Então vamos guardar o pedaço que importa da data de hoje para procurá-la na saída do who:

$ Data=$(date | cut -c 5-10)

Eu usei a construção $(...), para priorizar a execução dos comandos antes de atribuir a sua saída à variável $Data. Vamos ver se funcionou:

$ echo $Data
Sep 20

Beleza! Agora, o que temos que fazer é procurar no comando who os registros que não possuem esta data.

– Ah! Eu acho que estou entendendo! Você falou em procurar e me ocorreu o comando grep, estou certo?

– Certíssimo! Só que eu tenho que usar o grep com aquela opção que ele só lista os registros nos quais ele não encontrou a cadeia. Você se lembra que opção é essa?

– Claro, é a opção -v

– Isso! Tá ficando bão! Então vamos ver:

$ who | grep -v “$Data”
jneves pts/1 Sep 18 13:40

– E se eu quisesse mais um pouco de perfumaria eu faria assim:

$ who | grep -v “$Data” | cut -f1 -d ‘ ‘
jneves

– Viu? Não foi necessário usar nenhum comando condicional, até porque o nosso mais usado comando condicional, o famoso if, não testa condição, mas sim instruções, como veremos agora.

Comandos Condicionais

Veja as linhas de comando a seguir:

$ ls musicas
musicas

$ echo $?
0

$ ls ArqInexistente
ls: ArqInexistente: No such file or directory

$ echo $?
1

$ who | grep jneves
jneves pts/1 Sep 18 13:40 (10.2.4.144)

$ echo $?
0

$ who | grep juliana
$ echo $?

1

– O que é esse $? faz aí? Começando por cifrão ($) parece ser uma variável, certo?

– Sim é uma variável que contém o código de retorno da última instrução executada. Posso te garantir que se esta instrução foi bem sucedida, $? terá o valor zero, caso contrário seu valor será diferente de zero.

O Comando if

O que o nosso comando condicional if faz é testar a variável $?. Então vamos ver a sua sintaxe:

    if cmd
    then
        cmd1
        cmd2
        cmdn
    else
        cmd3
        cmd4
        cmdm
    fi

ou seja: caso comando cmd tenha sido executado com sucesso, os comandos do bloco do then (cmd1, cmd2 e cmdn) serão executados, caso contrário, os comandos executados serão os do bloco opcional do else (cmd3, cmd4 e cmdm), terminando com um fi.

Vamos ver na prática como isso funciona usando um scriptizinho que serve para incluir usuários no /etc/passwd:

$ cat incusu
#!/bin/bash
# Versão 1
if grep ^$1 /etc/passwd
then
echo Usuario ‘$1’ já existe
else
if useradd $1
then
echo Usuário ‘$1’ incluído em /etc/passwd
else
echo “Problemas no cadastramento. Você é root?”
fi
fi

Repare que o if está testando direto o comando grep e esta é a sua finalidade. Caso o if seja bem sucedido, ou seja, o usuário (cujo nome está em $1) foi encontrado em /etc/passwd, os comandos do bloco do then serão executados (neste exemplo é somente o echo) e caso contrário, as instruções do bloco do else é que serão executadas, quando um novo if testa se o comando useradd foi executado a contento, criando o registro do usuário em /etc/passwd, ou não quando dará a mensagem de erro.
Vejamos sua execução, primeiramente passando um usuário já cadastrado:

$ incusu jneves
jneves:x:54002:1001:Julio Neves:/home/jneves:/bin/bash
Usuario ‘jneves’ ja existe

Como já vimos diversas vezes, mas é sempre bom insistir no tema para que você já fique precavido, no exemplo dado surgiu uma linha indesejada, ela é a saída do comando grep. Para evitar que isso aconteça, devemos desviar a saída desta instrução para /dev/null, ficando assim:

$ cat incusu
#!/bin/bash
# Versão 2
if grep ^$1 /etc/passwd > /dev/null # ou: if grep -q ^$1 /etc/passwd
then
echo Usuario ‘$1’ já existe
else
if useradd $1
then
echo Usuário ‘$1’ incluído em /etc/passwd
else
echo “Problemas no cadastramento. Você é root?”
fi
fi

Agora vamos testá-lo como usuário normal (não root):

$ incusu ZeNinguem
./incusu[6]: useradd: not found
Problemas no cadastramento. Você é root?

Epa, aquele erro não era para acontecer! Para evitar que isso aconteça devemos mandar também a saída de erro (strerr, lembra?) do useradd para /dev/null, ficando na versão final assim:

$ cat incusu
#!/bin/bash
# Versão 3
if grep ^$1 /etc/passwd > /dev/null
then
echo Usuario ‘$1’ já existe
else
if useradd $1 2> /dev/null
then
echo Usuário ‘$1’ incluído em /etc/passwd
else
echo “Problemas no cadastramento. Você é root?”
fi
fi

Depois destas alterações e de fazer um su – (me tornar root) vejamos o seu comportamento:

$ incusu botelho
Usuário ‘botelho’ incluido em /etc/passwd

E novamente:

$ incusu botelho
Usuário ‘botelho’ já existe

Lembra que eu falei que ao longo dos nossos papos e chopes os nossos programas iriam se aprimorando? Então vejamos agora como poderíamos melhorar o nosso programa para incluir músicas:

$ cat musinc
#!/bin/bash
# Cadastra CDs (versao 3)
#
if grep “^$1$” musicas > /dev/null
then
echo Este álbum já está cadastrado
else
echo $1 >> musicas
sort musicas -o musicas
fi

Como você viu, é uma pequena evolução da versão anterior, assim, antes de incluir um registro (que pela versão anterior poderia ser duplicado), testamos se o registro começava (^) e terminava ($) igual ao parâmetro passado ($1). O uso do circunflexo (^) no início da cadeia e cifrão ($) no fim, são para testar se o parâmetro passado (o álbum e seus dados) são exatamente iguais a algum registro anteriormente cadastrado e não somente igual a um pedaço de algum dos registros.
Vamos executá-lo passando um álbum já cadastrado:

$ musinc “album 4^Artista7~Musica7:Artista8~Musica8”
Este álbum já está cadastrado

E agora um não cadastrado:

$ musinc “album 5^Artista9~Musica9:Artista10~Musica10”
$ cat musicas
album 1^Artista1~Musica1:Artista2~Musica2
album 2^Artista3~Musica3:Artista4~Musica4
album 3^Artista5~Musica5:Artista6~Musica5
album 4^Artista7~Musica7:Artista8~Musica8
album 5^Artista9~Musica9:Artista10~Musica10

– Como você viu, o programa melhorou um pouquinho, mas ainda não está pronto. À medida que eu for te ensinando a programar em shell, nossa CDteca irá ficando cada vez melhor.

– Entendi tudo que você me explicou, mas ainda não sei como fazer um if para testar condições, ou seja o uso normal do comando.

– Cara, para isso existe o comando test, ele é que testa condições. O comando if testa o comando test. Mas isso está meio confuso e como já falei muito, estou precisando de uns chopes para molhar a palavra. Vamos parando por aqui e na próxima vez te explico direitinho o uso do test e de diversas outras sintaxes do if.

– Falou! Acho bom mesmo porque eu também já tô ficando zonzo e assim tenho tempo para praticar esse monte de coisas que você me falou hoje.

– Para fixar o que você aprendeu, tente fazer um scriptizinho para informar se um determinado usuário, que será passado como parâmetro esta logado (arghh!) ou não.

– Aê Chico, mais dois chopes por favor…

Vou aproveitar também para mandar o meu jabá: diga para os amigos que quem estiver afim de fazer um curso porreta de programação em Shell que mande um e-mail para a nossa gerencia de treinamento para informar-se.

Qualquer dúvida ou falta de companhia para um chope ou até para falar mal dos políticos é só mandar um e-mail para mim.

Valeu!

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Papo de Botequim – Parte 7


– Cumequié rapaz! Derreteu os pensamentos para fazer o scriptizinho que eu te pedi? – É, eu realmente tive de colocar muita pensação na tela preta mas acho que consegui! Bem, pelo menos no testes que fiz a coisa funcionou, mas você tem sempre que botar chifres em cabeça de cachorro!- Não é bem assim, programar em shell é muito fácil, o que vale são as dicas e macetes que não são triviais. As correções que te faço, são justamente para mostrá-los. Mas vamos pedir dois chopes enquanto dou uma olhadela no teu script.- Aê Chico, traz dois. Não esqueça que um é sem colarinho.


$ cat restaura

#!/bin/bash
#
# Restaura arquivos deletados via erreeme
#

if [ $# -eq 0 ]
then
echo “Uso: $0 ”
exit 1
fi
# Pega nome do diretório original na última linha
Dir=`tail -1 /tmp/$LOGNAME/$1`
# O grep -v exclui última linha e cria o
# arquivo com diretorio e nome originais
grep -v $Dir /tmp/$LOGNAME/$1 > $Dir/$1
# Remove arquivo que jah estava moribundo
rm /tmp/$LOGNAME/$1

– Peraí, deixa ver se entendi. Primeiramente você coloca na variável Dir a última linha do arquivo cujo nome é formado por /tmp/nome do operador ($LOGNAME)/parâmetro passado com nome do arquivo a ser restaurado ($1). Em seguida o grep -v que você montou exclui a linha em que estava o nome do diretório, isto é, sempre a última e manda o restante do arquivo, que seria assim o arquivo já limpo, para o diretório original e depois remove o arquivo da “lixeira”; S E N S A C I O N A L! Impecável! Zero erro! Viu? você já está pegando as manhas do shell!

– Então vamulá chega de lesco-lesco e blá-blá-blá, de que você vai falar hoje?

– É tô vendo que o bichinho do Shell te pegou. Que bom, mas vamos ver como se pode (e deve) ler dados e formatar telas e primeiramente vamos entender um comando que te dá todas as ferramentas para você formatar a sua tela de entrada de dados.

O comando tput

O maior uso deste comando é para posicionar o cursor na tela, mas também é muito usado para apagar dados da tela, saber a quantidade de linhas e colunas para poder posicionar corretamente um campo, apagar um campo cuja crítica detectou como errado. Enfim, quase toda a formatação da tela é feita por este comando.

Uns poucos atributos do comando tput podem eventualmente não funcionar se o modelo de terminal definido pela variável $TERM não tiver esta facilidade incorporada.

Na tabela a seguir, apresenta os principais atributos do comando e os efeitos executados sobre o terminal, mas veja bem existem muito mais do que esses, veja só:

$ tput it
8

Neste exemplo eu recebi o tamanho inicial da <TAB> ( Initial T ab), mas me diga: para que eu quero saber isso? Se você quiser saber tudo sobre o comando tput (e olha que é coisa que não acaba mais), veja em: http://www.cs.utah.edu/dept/old/texinfo/tput/tput.html#SEC4.

Principais Opções do Comando tput
Opções do tput Efeito
cup lin col CUrsor Position – Posiciona o cursor na linha lin e coluna col. A origem é zero
bold Coloca a tela em modo de ênfase
rev Coloca a tela em modo de vídeo reverso
smso Idêntico ao anterior
smul A partir desta instrução, os caracteres teclados aparecerão sublinhados na tela
blink Os caracteres teclados aparecerão piscando
sgr0 Após usar um dos atributos acima, use este para restaurar a tela ao seu modo normal
reset Limpa o terminal e restaura suas definições de acordo com o terminfo ou seja, o terminal volta ao padrão definido pela variável $TERM
lines Devolve a quantidade de linhas da tela no momento da instrução
cols Devolve a quantidade de colunas da tela no momento da instrução
el Erase Line – Apaga a linha a partir da posição do cursor
ed Erase Display – Apaga a tela a partir da posição do cursor
il n Insert Lines – Insere n linhas a partir da posição do cursor
dl n Delete Lines – Remove n linhas a partir da posição do cursor
ech n Erase CHaracters – Apaga n caracteres a partir da posição do cursor
sc Save Cursor position – Salva a posição do cursor
rc Restore Cursor position – Coloca o cursor na posição marcada pelo último sc

Vamos fazer um programa bem besta (e portanto fácil) para mostrar alguns atributos deste comando. É o famoso e famigerado Alô Mundo só que esta frase será escrita no centro da tela e em vídeo reverso e após isso, o cursor voltará para a posição em que estava antes de escrever esta tão criativa frase. Veja:

$ cat alo.sh
#!/bin/bash
# Script bobo para testar
# o comando tput (versao 1)

Colunas=`tput cols` # Salvando quantidade colunas
Linhas=`tput lines` # Salvando quantidade linhas
Linha=$((Linhas / 2)) # Qual eh a linha do meio da tela?
Coluna=$(((Colunas – 9) / 2)) # Centrando a mensagem na tela
tput sc # Salvando posicao do cursor
tput cup $Linha $Coluna # Posicionando para escrever
tput rev # Video reverso
echo Alô Mundo
tput sgr0 # Restaura video ao normal
tput rc # Restaura cursor aa posição original

Como o programa já está todo comentado, acho que a única explicação necessária seria para a linha em que é criada a variável Coluna e o estranho ali é aquele número 9, mas ele é o tamanho da cadeia que pretendo escrever (Alô Mundo).

Desta forma este programa somente conseguiria centrar cadeias de 9 caracteres, mas veja isso:

$ var=Papo
$ echo ${#var}
4

$ var=”Papo de Botequim”
$ echo ${#var}
16

Ahhh, melhorou! Então agora sabemos que a construção ${#variavel} devolve a quantidade de caracteres de variavel. Assim sendo, vamos otimizar o nosso programa para que ele escreva em vídeo reverso, no centro da tela a cadeia passada como parâmetro e depois o cursor volte à posição que estava antes da execução do script.

$ cat alo.sh
#!/bin/bash
# Script bobo para testar
# o comando tput (versao 2)

Colunas=`tput cols` # Salvando quantidade colunas
Linhas=`tput lines` # Salvando quantidade linhas
Linha=$((Linhas / 2)) # Qual eh a linha do meio da tela?
Coluna=$(((Colunas – ${#1}) / 2)) #Centrando a mensagem na tela
tput sc # Salvando posicao do cursor
tput cup $Linha $Coluna # Posicionando para escrever
tput rev # Video reverso
echo $1
tput sgr0 # Restaura video ao normal
tput rc # Restaura cursor aa posição original

Este script é igual ao anterior, só que trocamos o valor fixo da versão anterior (9), por ${#1}, onde este 1 é o $1 ou seja, esta construção devolve o tamanho do primeiro parâmetro passado para o programa. Se o parâmetro que eu quiser passar tiver espaços em branco, teria que colocá-lo todo entre aspas, senão o $1 seria somente o primeiro pedaço. Para evitar este aborrecimento, é só substituir o $1 por $*, que como sabemos é o conjunto de todos os parâmetros. Então aquela linha ficaria assim:

    Coluna=`$(((Colunas - ${#*}) / 2))` #Centrando a mensagem na tela

e a linha echo $1 passaria a ser echo $*. Mas não esqueça de qdo executar, passar a frase que vc desja centrar como parâmetro.

E agora podemos ler os dados da tela

Bem a partir de agora vamos aprender tudo sobre leitura, só não posso ensinar a ler cartas e búzios porque se eu soubesse, estaria rico, num pub londrino tomando scotch e não em um boteco desses tomando chope. Mas vamos em frente.

Da última vez que nos encontramos aqui eu já dei uma palinha sobre o comando read. Para começarmos a sua analise mais detalhada. veja só isso:

$ read var1 var2 var3
Papo de Botequim

$ echo $var1
Papo

$ echo $var2
de

$ echo $var3
Botequim

$ read var1 var2
Papo de Botequim

$ echo $var1
Papo

$ echo $var2
de Botequim

Como você viu, o read recebe uma lista separada por espaços em branco e coloca cada item desta lista em uma variável. Se a quantidade de variáveis for menor que a quantidade de itens, a última variável recebe o restante.

Eu disse lista separada por espaços em branco? Agora que você já conhece tudo sobre o $IFS (Inter Field Separator) que eu te apresentei quando falávamos do comando for, será que ainda acredita nisso? Vamos testar direto no prompt:

$ oIFS=”$IFS”
$ IFS=:
$ read var1 var2 var3
Papo de Botequim

$ echo $var1
Papo de Botequim

$ echo $var2$ echo $var3
$ read var1 var2 var3
Papo:de:Botequim

$ echo $var1
Papo

$ echo $var2
de

$ echo $var3
Botequim

$ IFS=”$oIFS”

Viu, estava furado! O read lê uma lista, assim como o for, separada pelos caracteres da variável $IFS. Então veja como isso pode facilitar a sua vida:

$ grep julio /etc/passwd
julio:x:500:544:Julio C. Neves – 7070:/home/julio:/bin/bash

$ oIFS=”$IFS” # Salvando IFS
$ IFS=:
$ grep julio /etc/passwd | read lname lixo uid gid coment home shell
$ echo -e “$lnamen$uidn$gidn$comentn$homen$shell”
julio
500
544
Julio C. Neves – 7070
/home/julio
/bin/bash

$ IFS=”$oIFS” # Restaurando IFS

Como você viu, a saída do grep foi redirecionada para o comando read que leu todos os campos de uma só tacada. A opção -e do echo foi usada para que o n fosse entendido como um salto de linha (new line), e não como um literal.

Sob o Bash existem diversas opções do read que servem para facilitar a sua vida. Veja a tabela a seguir:

Opções do comando read no Bash
Opção Ação
-p prompt Escreve o prompt antes de fazer a leitura
-n num Lê até num caracteres
-t seg Espera seg segundos para que a leitura seja concluída
-s O que está sendo teclado não aparece na tela

E agora direto aos exemplos curtos para demonstrar estas opções.

Para ler um campo “Matrícula”:

$ echo -n “Matricula: “; read Mat # -n nao salta linha
Matricula: 12345

$ echo $Mat
12345

Ou simplificando com a opção -p:

$ read -p “Matricula: ” Mat
Matricula: 12345

$ echo $Mat
12345

Para ler uma determinada quantidade de caracteres:

$ read -n5 -p”CEP: ” Num ; read -n3 -p- Compl
CEP: 12345-678
$
$ echo $Num
12345

$ echo $Compl
678

Neste exemplo fizemos dois read: um para a primeira parte do CEP e outra para o seu complemento, deste modo formatando a entrada de dados. O cifrão ($) após o último algarismo teclado, é porque o read não tem o new-line implícito por default como o tem o echo.

Para ler que até um determinado tempo se esgote (conhecido como time out):

$ read -t2 -p “Digite seu nome completo: ” Nom || echo ‘Eta moleza!’
Digite seu nome completo: JEta moleza!

$ echo $Nom$

Obviamente isto foi uma brincadeira, pois só tinha 3 segundos para digitar o meu nome completo e só me deu tempo de teclar um J (aquele colado no Eta), mas serviu para mostrar duas coisas:

  1. O comando após o par de barras verticais (||) (o ou lógico, lembra-se?) será executado caso a digitação não tenha sido concluída no tempo estipulado;
  2. A variável Nom permaneceu vazia. Ela será valorada somente quando o <ENTER> for teclado.

Para ler um dado sem ser exibido na tela:

$ read -sp “Senha: “
Senha:
$ echo $REPLY
segredo 🙂

Aproveitei um erro para mostrar um macete. Quando escrevi a primeira linha, esqueci de colocar o nome da variável que iria receber a senha, e só notei quando ia listar o seu valor. Felizmente a variável $REPLY do Bash, possui a última cadeia lida e me aproveitei disso para não perder a viagem. Teste você mesmo o que acabei de fazer.

Mas o exemplo que dei, era para mostrar que a opção -s impede o que está sendo teclado de ir para a tela. Como no exemplo anterior, a falta do new-line fez com que o prompt de comando ($) permanecesse na mesma linha.

Bem, agora que sabemos ler da tela vejamos como se lê os dados dos arquivos.

Vamos ler arquivos?

Como eu já havia lhe dito, e você deve se lembrar, o while testa um comando e executa um bloco de instruções enquanto este comando for bem sucedido. Ora quando você está lendo um arquivo que lhe dá permissão de leitura, o read só será mal sucedido quando alcançar o EOF (end of file), desta forma podemos ler um arquivo de duas maneiras:

1 – Redirecionando a entrada do arquivo para o bloco do while assim:

    while read Linha
    do
        echo $Linha
    done < arquivo

2 – Redirecionando a saída de um cat para o while, da seguinte maneira:

    cat arquivo |
    while read Linha
    do
        echo $Linha
    done

Cada um dos processos tem suas vantagens e desvantagens:

Vantagens do primeiro processo:

  • É mais rápido;
  • Não necessita de um subshell para assisti-lo;

Desvantagem do primeiro processo:

  • Em um bloco de instruções grande, o redirecionamento fica pouco visível o que por vezes prejudica a vizualização do código;

Vantagem do segundo processo:

  • Como o nome do arquivo está antes do while, é mais fácil a vizualização do código.

Desvantagens do segundo processo:

  • O Pipe (|) chama um subshell para interpretá-lo, tornando o processo mais lento, pesado e por vezes problemático (veja o exemplo a seguir).

Para ilustrar o que foi dito, veja estes exemplos a seguir:

$ cat readpipe.sh
#!/bin/bash
# readpipe.sh
# Exemplo de read passando arquivo por pipe.

Ultimo=”(vazio)”
cat $0 | # Passando o arq. do script ($0) p/ while
while read Linha
do
Ultimo=”$Linha”
echo “-$Ultimo-”
done
echo “Acabou, Último=:$Ultimo:”

Vamos ver sua execução:

$ readpipe.sh
-#!/bin/bash-
-# readpipe.sh-
-# Exemplo de read passando arquivo por pipe.-

-Ultimo=”(vazio)”-
-cat $0 | # Passando o arq. do script ($0) p/ while-
-while read Linha-
-do-
-Ultimo=”$Linha”-
-echo “-$Ultimo-“-
-done-
-echo “Acabou, Último=:$Ultimo:”-
Acabou, Último=:(vazio):

Como você viu, o script lista todas as suas próprias linhas com um sinal de menos (-) antes e outro depois de cada, e no final exibe o conteúdo da variável $Ultimo. Repare no entanto que o conteúdo desta variável permanece como (vazio).

– Ué será que a variável não foi atualizada?

– Foi, e isso pode ser comprovado porque a linha echo "-$Ultimo-" lista corretamente as linhas.

– Então porque isso aconteceu?

– Por que como eu disse, o bloco de instruções redirecionado pelo pipe (|) é executado em um subshell e lá as variáveis são atualizadas. Quando este subshell termina, as atualizações das variáveis vão para os píncaros do inferno junto com ele. Repare que vou fazer uma pequena mudança nele, passando o arquivo por redirecionamento de entrada (<) e as coisas passarão a funcionar na mais perfeita ordem:

$ cat redirread.sh
#!/bin/bash
# redirread.sh
# Exemplo de read passando arquivo por pipe.

Ultimo=”(vazio)”
while read Linha
do
Ultimo=”$Linha”
echo “-$Ultimo-”
done < $0 # Passando o arq. do script ($0) p/ while
echo “Acabou, Último=:$Ultimo:”

E veja a sua perfeita execução:

$ redirread.sh
-#!/bin/bash-
-# redirread.sh-
-# Exemplo de read passando arquivo por pipe.-

-Ultimo=”(vazio)”-
-while read Linha-
-do-
-Ultimo=”$Linha”-
-echo “-$Ultimo-“-
-done < $0 # Passando o arq. do script ($0) p/ while-
-echo “Acabou, Último=:$Ultimo:”-
Acabou, Último=:echo “Acabou, Último=:$Ultimo:”:

Bem amigos da Rede Shell, para finalizar o comando read só falta mais um pequeno e importante macete que vou mostrar utilizando um exemplo prático. Suponha que você queira listar na tela um arquivo e a cada dez registros esta listagem pararia para que o operador pudesse ler o conteúdo da tela e ela só voltasse a rolar (scroll) após o operador digitar qualquer tecla. Para não gastar papel (da Linux Magazine) pra chuchu, vou fazer esta listagem na horizontal e o meu arquivo (numeros), tem 30 registros somente com números seqüênciais. Veja:

$ seq 30 | xargs -i echo lin {} > numeros # Criando arquivo numeros
$ paste -sd’:’ numeros # Este paste é para exibir o conteúdo sem ser um
#+ por linha, usando dois-pontos como separador
lin 1:lin 2:lin 3:lin 4:lin 5:lin 6:lin 7:lin 8:lin 9:lin 10:lin 11:lin 12:lin 13:lin 14:lin 15:l
in 16:lin 17:lin 18:lin 19:lin 20:lin 21:lin 22:lin 23:lin 24:lin 25:lin 26:lin 27:lin 28:lin 29:
lin 30

$ cat 10porpag.sh
#!/bin/bash
# Prg de teste para escrever
# 10 linhas e parar para ler
# Versão 1

while read Num
do
let ContLin++ # Contando…
echo -n “$Num ” # -n para nao saltar linha
((ContLin % 10)) > /dev/null || read
done < numeros

Na tentativa de fazer um programa genérico criamos a variável $ContLin (por que na vida real, os registros não são somente números seqüenciais) e parávamos para ler quando o resto da divisão por 10 fosse zero (mandando a saída para /dev/null de forma a não aparecer na tela, sujando-a). Porém, quando fui executar deu a seguinte zebra:

$ 10porpag.sh
lin 1 lin 2 lin 3 lin 4 lin 5 lin 6 lin 7 lin 8 lin 9 lin 10 lin 12 lin 13 lin 14 lin 15 lin 16 l
in 17 lin 18 lin 19 lin 20 lin 21 lin 23 lin 24 lin 25 lin 26 lin 27 lin 28 lin 29 lin 30
$

Repare que faltou a linha lin 11 e a listagem não parou no read. O que houve foi que toda a entrada do loop estava redirecionada do arquivo numeros e desta forma, a leitura foi feita em cima deste arquivo, desta forma perdendo a lin 11 (e também a lin 22 ou qualquer linha múltipla de 11).

Vamos mostrar então como deveria ficar para funcionar a contento:

$ cat 10porpag.sh
#!/bin/bash
# Prg de teste para escrever
# 10 linhas e parar para ler
# Versão 2

while read Num
do
let ContLin++ # Contando…
echo -n “$Num ” # -n para nao saltar linha
((ContLin % 10)) > /dev/null || read < /dev/tty
done < numeros

Observe que agora a entrada do read foi redirecionada por /dev/tty, que nada mais é senão o terminal corrente, explicitando desta forma que aquela leitura seria feita do teclado e não de numeros. É bom realçar que isto não acontece somente quando usamos o redirecionamento de entrada, se houvéssemos usado o redirecionamento via pipe (|), o mesmo teria ocorrido.

Veja agora a sua execução:

$ 10porpag.sh
lin 1 lin 2 lin 3 lin 4 lin 5 lin 6 lin 7 lin 8 lin 9 lin 10
lin 11 lin 12 lin 13 lin 14 lin 15 lin 16 lin 17 lin 18 lin 19 lin 20
lin 21 lin 22 lin 23 lin 24 lin 25 lin 26 lin 27 lin 28 lin 29 lin 30

Isto está quase bom mas falta um pouco para ficar excelente. Vamos melhorar um pouco o exemplo para que você o reproduza e teste (mas antes de testar aumente o número de registros de numeros ou reduza o tamanho da tela, para que haja quebra).

$ cat 10porpag.sh
#!/bin/bash
# Prg de teste para escrever
# 10 linhas e parar para ler
# Versão 3

clear
while read Num
do
((ContLin++)) # Contando…
echo “$Num”
((ContLin % (`tput lines` – 3))) ||
{
read -n1 -p”Tecle Algo ” < /dev/tty # para ler qq caractere
clear # limpa a tela apos leitura
}
done < numeros

A mudança substancial feita neste exemplo é com relação à quebra de página, já que ela é feita a cada quantidade-de-linhas-da-tela (tput lines) menos (-) 3, isto é, se a tela tem 25 linha, listará 22 registros e parará para leitura. No comando read também foi feita uma alteração, inserido um -n1 para ler somente um caractere sem ser necessariamente um <ENTER> e a opção -p para dar a mensagem.

– Bem meu amigo, por hoje é só porque acho que você já está de saco cheio…

– Num tô não, pode continuar…

– Se você não estiver eu estou… Mas já que você está tão empolgado com o Shell, vou te deixar um exercício de apredizagem para você melhorar a sua CDteca que é bastante simples. Reescreva o seu programa que cadastra CDs para montar toda a tela com um único echo e depois vá posicionando à frente de cada campo para receber os valores que serão teclados pelo operador.

Vou aproveitar também para mandar o meu jabá: diga para os amigos que quem estiver afim de fazer um curso porreta de programação em Shell que mande um e-mail para a nossa gerencia de treinamento para informar-se.

Qualquer dúvida ou falta de companhia para um chope ou até para falar mal dos políticos é só mandar um e-mail para mim.

Valeu!

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